Fundamentos: quão grande é o teu evangelho?

 



Artigo da revista Nucleus da Christian Medical Fellowship (Reino Unido), "de estudantes para estudantes".

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James Paul analisa a verdade sobre o céu

James Paul formou-se como médico de cuidados paliativos e agora trabalha para a L'Abri Fellowship em Hampshire.


Os apóstolos escolheram a palavra euangelion, termo grego para “boas novas”, para descrever a mensagem de Jesus. A palavra "evangelho" (gospel) que usamos hoje vem do anglo-saxónico para essa mesma palavra. Mas o que são exatamente as boas novas do evangelho? É uma coisa comum entre os cristãos evangélicos resumir o evangelho como, “Jesus morreu na cruz pelos nossos pecados para que possamos ir para o céu”. Mas são realmente essas as boas novas sobre as quais falaram os apóstolos?

Quando olhamos para a Bíblia, vemos que o evangelho é muito mais do que salvar almas para o céu. Na sua carta aos Efésios, Paulo diz que a vontade de Deus é “trazer unidade a todas as coisas no céu e na terra, sob Cristo” (Efésios 1:10). O problema com a declaração do evangelho, “Jesus morreu pelos nossos pecados para que possamos ir para o céu”, não é tanto que esteja errada, mas sim que é muito restrita. É uma redução da verdade cósmica do que Deus está a fazer em e através de Jesus Cristo. E o grande problema com esse evangelho menor é que ele pode reforçar uma divisão entre o céu e a terra que leva a um dualismo inútil [1] na vida de muitos cristãos.

Quanto mais pensamos que Deus nos quer tirar desta criação material e nos levar a um céu espiritualizado, é mais provável que pensemos que para sermos verdadeiramente espirituais devemos nos desligar das coisas quotidianas da vida terrena e focarmo-nos na vida interior da alma. Essa divisão entre o céu e a terra, a alma e o corpo, o espiritual e o secular, tem sido um espinho persistente na carne da igreja desde os primeiros tempos. Está presente na ideia de que devemos tratar o nosso corpo físico com severidade como uma disciplina espiritual necessária para a alma, [2] e nas atitudes negativas em relação ao sexo como algo que deve ser evitado se quisermos viver uma vida espiritual pura.

Mesmo hoje, essa forma dualística de ver a realidade fornece um contexto implícito para muitos cristãos, que os leva a verem as suas vidas divididas entre uma dimensão espiritual primária de atividades da igreja, leitura da Bíblia, oração e evangelismo, e uma dimensão “secular” secundária menos importante, preenchida por trabalho, lazer, relacionamentos e educação. Envolvimento cultural, ação social, criatividade, mundo académico e cuidado com a natureza, torna-se tudo um pano de fundo sem importância para o drama espiritual “real” de salvar almas para o céu. No entanto, como vimos, o plano de Deus é reunir tudo no céu e na terra sob o amoroso senhorio de Jesus Cristo. Qual é, então, a melhor forma de entender a relação entre o céu e a terra?


A sala do trono de Deus

Os escritores da Bíblia focam-se menos na ideia do céu como um lugar “lá no universo onde Deus vive” e mais como a sala do trono de Deus. [3] Isso enfatiza o céu como o lugar de onde Deus governa e onde a sua vontade é feita. Portanto, em vez de um local, penso ser melhor vermos o céu como uma dimensão da realidade - a dimensão onde a vontade de Deus é feita. A história da Bíblia começa em Génesis com um encontro de esferas de ação, um jardim terreno perfeito onde a vontade celestial de Deus é feita. A missão que Deus dá à humanidade é estender a sua boa e amorosa vontade para que toda a terra seja colocada sob a esfera de ação do céu. [4] Quando os primeiros seres humanos rejeitaram a Deus e fecharam os seus corações à sua vontade, o caminho entre o céu e a terra foi fechado. [5] No entanto, a resposta de Deus não foi sentar-se num céu distante e esperar que os fiéis encontrassem maneiras de alcançá-lo. A sua resposta foi abrir as portas do céu pelas quais Ele poderia descer à Terra e começar a obra de redenção de um mundo ferido e destruído.


Portas

Há muitos exemplos na Bíblia dessas portas do céu para a terra - a escada de Jacob, [6] a sarça ardente, [7] a promulgação da lei no Monte Sinai, [8] Deus vindo habitar na terra no tabernáculo [9] e o templo. [10] Mas no evangelho, Deus abre uma porta em si mesmo assumindo a forma humana; Jesus Cristo é “o homem celestial”, [11] totalmente Deus e totalmente humano, totalmente do céu e totalmente da terra. A sua missão, ao morrer e ressuscitar, é pagar o preço pelos pecados da humanidade para que a santidade do céu e a terra infetada pelo pecado possam se reunir novamente. Jesus não morreu apenas para que as almas dos justos escapassem para o céu. Jesus morreu para que tudo no céu e na terra pudesse ser reunido numa nova criação alegre e gloriosa. Isso é o que o apóstolo João viu na sua visão final de um novo céu e uma nova terra. [12]

A extraordinária maravilha do evangelho é que quando te tornas cristão, tornas-te num lugar de encontro do céu na terra. O Espírito de Deus vem do céu para viver dentro de ti, de modo que tenhas o poder de cumprir a vontade de Deus na terra. Tornas-te um mini-tabernáculo, um mini-templo, um mini-local de habitação de Deus na terra, de onde o amoroso poder do céu pode fluir para redimir o mundo destruído ao seu redor. Contar às pessoas as boas novas do evangelho é de vital importância porque elas precisam de saber como podem se tornar parte do céu na Terra. Mas a missão que Deus deu ao seu povo cheio do Espírito é muito maior do que apenas ganhar almas para o céu: é nada menos do que fazer parte de trazer todas as coisas, no céu e na terra, sob Cristo.


Cristo é o Senhor de tudo

É por isso que não há divisão espiritual-secular na vida cristã. Como disse o teólogo e primeiro-ministro holandês Abraham Kuyper, "Não há um único centímetro quadrado, em todos os domínios da nossa existência, sobre os quais Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: É meu!”. [13] Cada um tem uma parte a desempenhar em trazer o reino dos céus para o seu centímetro quadrado da terra, não importa quão pequena ou insignificante possamos achar que essa parte é. Cristo é o Senhor não apenas das coisas religiosas ou das almas, ele é o Senhor dos corpos e mentes, das ideias e emoções, da ciência e do mundo natural, da medicina e ecologia, dos negócios e economia, de toda a história humana e de toda a civilização humana.


LEITURA ADICIONAL Este artigo é baseado no novo livro de James Paul “What on Earth is Heaven?”(IVP) que está disponível em IVPbooks.com e em amazon.co.uk. Nele, ele explora o que a Bíblia tem a dizer sobre questões como “o que é o céu?”, “onde está o céu?”, “porque razão a ciência não pode encontrar o céu?”, “o que acontece connosco depois de morrermos?” e “o que é que o céu tem a ver com as nossas vidas aqui na terra?”


Referências

1. “Dualismo” é o termo filosófico para a divisão da realidade em dois reinos contrários e frequentemente antagónicos.

2. Ver Colossenses 2:20-23

3. 2 Crónicas 18:18, Mateus 5:34. Génesis 1:28

5. Génesis 3:23-24

6. Génesis 28:10-15

7. Êxodo 3:2-4

8. Êxodo 19:20

9. Êxodo 40:34

10. 1 Reis 8:11

11. 1 Coríntios 15:48

12. Apocalipse 21: 1

13. Do discurso de posse de Kuyper na dedicação da Universidade Livre, Amsterdão; Bratt JD (ed), Abraham Kuyper: A Centennial Reader. Grand Rapids: Eerdmans; 1998: 488


Tradução: Carla Lima

Revisão: Jorge Cruz e Lilian Calaim